Belo
Horizonte (21/05/07) - Considerado fundamental para o planejamento de ações
voltadas para a atenção integral às pessoas com doença
falciforme, o cadastramento dos pacientes em todo o Brasil, que ainda caminha
de forma lenta e depende dos gestores estaduais, possibilitará que
cada estado tenha o seu perfil epidemiológico.
“O cadastro é fundamental, você não tem como planejar
nada se você não tem números. Como a gente planeja sem
dados? Nós estamos trabalhando com algum planejamento, com estimativas,
que tem funcionado satisfatoriamente. Agora, o ideal é que cada estado
tenha o seu perfil epidemiológico”, observou a coordenadora
da Política Nacional de Atenção Integral às
Pessoas com Doença Falciforme e outras Hemoglobinopatias do Ministério
da Saúde, Joice Aragão de Jesus.
Como não está centralizado no Ministério da Saúde,
o cadastramento depende do gestor estadual, que decide se a doença
falciforme será prioridade em seu estado. “Caminha lento porque,
no SUS (Sistema Único de Saúde), o gestor estadual é
quem tem a ingerência desse processo de trabalho, e nem todos os gestores
estaduais priorizaram a doença falciforme. Então, cada um
tem as suas demandas específicas, seus momentos, e nos estados onde
a incidência não sendo tão grande talvez não
motive para fazer essa ação, enfim, são questões
mesmo de gestão”, disse a coordenadora.
Um dos aliados na criação desse cadastro, segundo a médica,
será a informatização dos hemocentros no País,
que já está em andamento. “Os hemocentros têm
diferentes graus de informatização. E aí a gente vai
ter de fazer investimentos, mas não é falta de recursos. Falta
se tornar evidente que esse caminho é necessário. Quando a
gente tiver todo os hemocentros informatizados, e esse cadastro caminhando,
a gente vai poder falar dos números. Estamos investindo nisso”.
É importante, por exemplo, que o cadastro mostre a cobertura da triagem
neonatal nos estados, e não apenas o número de pacientes.
“Quantos têm? Quantos pacientes com doença falciforme?
Como está a cobertura da triagem? Como está a cobertura da
rede? A eletroforese está disponibilizada? Quer dizer, esse cadastro
depende de várias ações”, afirmou Joice Aragão.
Devido justamente à falta de dados estatísticos, a médica
prefere não arriscar uma estimativa, nem mesmo aproximada, do número
de pessoas com doença falciforme no País. “Dizer que
agora temos uma estimativa correta eu estaria incorrendo em erros, preferimos,
então, não divulgar essa estimativa, porque não temos
ainda elementos para estimar com precisão”.
A cobertura da triagem neonatal em estados como a Bahia, por exemplo, onde
a incidência da doença é a mais alta do Brasil, não
atinge 100% da população. “O hemocentro da Bahia, até
o momento, não está organizado para dizer exatamente quantos
tem, quantos recebeu, quanto perdeu de pessoas com doença falciforme.
De 2001 para cá, tem mais de dois mil pacientes diagnosticados na
triagem, e ainda não temos uma cobertura de 100% na Bahia. Então,
possivelmente o hemocentro perdeu muito paciente, ou perdeu porque morreu,
ou porque não foi mais até lá, pelas circunstâncias
sociais, do deslocamento, etc.”, observou Joice Aragão.