Belo
Horizonte (04/10/07) - A maioria das mortes de crianças com doença
falciforme ocorre antes dos dois anos de idade e em até 12 horas
após o início dos sintomas. Esse cenário reforça
a importância do diagnóstico precoce, do acompanhamento e de
programas de atenção integral à pessoa com doença
falciforme, segundo apontou estudo realizado pela pediatra Ana Paula Pinheiro
Chagas Fernandes, pesquisadora associada do Núcleo
de Ações e Pesquisa em Apoio Diagnóstico da Faculdade
de Medicina da UFMG (Nupad / FM / UFMG).
Supervisora médica do Nupad, Ana Paula Fernandes defendeu, no dia 1º de outubro, a dissertação de mestrado Caracterização e circunstâncias da ocorrência de óbitos em crianças com doença falciforme triadas pelo Programa Estadual de Triagem Neonatal de Minas Gerais, no período de março de 1998 a fevereiro de 2005. A pediatra recebeu o título de mestre em saúde da criança e do adolescente.
Para determinar as principais causas e a freqüência óbitos, assim como as circunstâncias e variáveis socioeconômicas e culturais associadas ao evento da morte, a pesquisadora avaliou os 78 casos ocorridos naquele período. Ana Paula entrevistou 52 famílias, pesquisou banco de dados, documento de óbitos e prontuários médicos.
| “Eu levei ela numa segunda-feira no pronto socorro. O médico lá não sabia... O médico não sabia como resolver o assunto, ele não conhecia a doença. Ele não sabia nem o que era anemia falciforme... Mas aí, ela tinha que fazer transfusão de sangue por causa que, a rapidez da febre, da infecção, é rápido demais.“ Trecho de depoimento de familiar de criança falecida com 11 meses em Campo Belo - MG |
Ela observou que 66% dos óbitos ocorreram antes das primeiras 24 horas após os primeiros sintomas, mostrando que esses pacientes precisam de uma atenção especial no atendimento de urgência e emergência.
Além disso, a maioria das mortes se deu em municípios de pequeno porte e em famílias de baixa escolaridade. O estudo mostrou que mais de 70% dos pais eram operários ou lavradores e quase 80% das mães não tinham trabalho remunerado. Além disso, aproximadamente 60% das famílias apresentavam renda per capta inferior a R$ 100 mensais.
A
partir desse levantamento, a pesquisadora defende a implantação
de uma política mais ampla de atenção às famílias
das pessoas com doença falciforme. “As questões que
envolvem a doença falciforme são complexas e transitam em
diversos setores. Assim, os programas de atenção integral
à doença falciforme devem abordar não somente as questões
técnicas, mas também as políticas sociais de educação,
cultura, saúde, trabalho e direitos sociais”, observou a pediatra.
“A maior importância desse trabalho é ajudar no planejamento de ações para a atenção integral à pessoa com doença falciforme. Além disso, não há nada parecido em outros estados, e mesmo em outros países”, acrescentou Ana Paula Fernandes.
Participaram da banca examinadora os professores da UFMG Marcos Borato Viana (orientador) e Joaquim Antônio César Mota, além do professor da faculdade de Ciências Médicas de São Paulo, Rodolfo Delfini Cançado.