Belo
Horizonte (21/11/07) - Estudo desenvolvido pela pesquisadora e membro do
Grupo Técnico do Cehmob-MG, pediatra Ana Paula Pinheiro Chagas Fernandes,
que investigou as causas de óbitos em crianças falciforme
em Minas Gerais, foi escolhido o melhor entre os 1.200 trabalhos inscritos
no Congresso Brasileiro de Hematologia e Hemoterapia (Hemo 2007), realizado
entre 7 e 10 de novembro em São Paulo.
Intitulado “Mortalidade por doença falciforme no Programa Estadual de Triagem Neonatal de Minas Gerais (PETN-MG) em 7 anos: primeiro estudo de base populacional no Brasil”, o trabalho da pediatra recebeu o Prêmio José Ória, que representa a categoria Melhor Trabalho do Congresso. A banca julgadora foi formada por pesquisados brasileiros que trabalham e residem fora do Brasil.
Outros oito prêmios foram concedidos durante o Hemo 2007, que é maior evento no Brasil em hematologia e hemoterapia e um dos maiores do mundo, cujo objetivo é valorizar a pesquisa científica no País. De acordo com a organização, a edição deste ano superou as anteriores e atraiu mais de quatro mil participantes. O número de trabalhos inscritos (1.200) em 2007 também foi recorde, em comparação aos outros anos.
O
pediatra, professor da Faculdade de Medicina da UFMG e coordenadora de pesquisa
do Cehmob-MG Marcos Borato Viana, que apresentou durante o Hemo 2007 o trabalho
da pesquisadora, da qual foi o orientador, destacou o reconhecimento pela
premiação na mais importante categoria do congresso.
“Além de ser reconhecido como centro de referência voltado para a saúde da população, o Nupad passa, também, a ser reconhecido como centro de excelência na pesquisa”, disse Marcos Borato.
Além do certificado de melhor trabalho do Hemo 2007, a comissão científica concede mil reais ao vencedor, que, segundo Borato, serão revertidos para a pesquisa. “O mais importante é o trabalho de alta qualidade que o Nupad vem desenvolvendo”, observou o pediatra, que é coordenador do serviço de hematologia do Hospital das Clínicas da UFMG.
Dissertação de mestrado
O trabalho premiado no congresso faz parte da dissertação de mestrado “Caracterização e circunstâncias da ocorrência de óbitos em crianças com doença falciforme triadas pelo Programa Estadual de Triagem Neonatal de Minas Gerais, no período de março de 1998 a fevereiro de 2005”, defendida pela pediatra Ana Paula Pinheiro em 1º de outubro na Faculdade de Medicina e aprovada pela banca examinadora. Ela recebeu o título de mestre em saúde da criança e do adolescente.
A pesquisadora investigou as 78 mortes em crianças com doença falciforme ocorridas no período entre 1998 e 2005. Ana Paula, que percorreu 10 mil quilômetros em visitas aos municípios mineiros, realizou 52 entrevistas com familiares e teve acesso a certidões de óbitos e prontuários médicos.
Nesse período, 1,8 milhão de recém-nascidos foram triados pelo Programa Estadual de Triagem Neonatal (PETN-MG), cuja coordenação técnica é feita pelo Nupad desde sua implantação, em 1993. O teste do pezinho identificou, no estado, 1.396 crianças com doença falciforme, que é a doença monogenética mais comum no Brasil – a incidência em Minas é de um caso para cada 1.400 nascidos vivos.
O resultado do estudo apontou questões relevantes a respeito da mortalidade em crianças com anemia falciforme. No primeiro ano de vida, o índice de óbitos nesses casos é duas vezes maior do que a taxa de mortalidade na população infantil em Minas. “Até os cinco anos estão morrendo seis vezes mais que a população em geral”, ressaltou Borato.
Outro aspecto importante do estudo refere-se às precárias condições econômicas, sociais e culturais das famílias pesquisadas. Para se ter uma idéia, 70% dos pais eram operários ou lavradores e quase 80% das mães não possuíam trabalho remunerado. Em 60% dos entrevistados, a renda per capta da família era inferior a R$ 100 por mês.
Segundo Borato, as condições ruins dessas famílias dificultam o acesso ao serviço de saúde. “Uma porcentagem grande de crianças morreu em casa ou a caminho do hospital”, afirmou o pediatra, que também apontou o desconhecimento da doença falciforme por parte dos profissionais de saúde. “A doença falciforme ainda não é compreendida. Houve uma diferença entre as causas apontadas pelos óbitos e o que foi apurado nas entrevistas da Ana Paula.”