Belo
Horizonte (15/05/07) - À frente da coordenação da política
nacional de atenção integral às pessoas com doença
falciforme, a pediatra e sanitarista Joice Aragão de Jesus disse
que o Centro de Educação e Apoio para Hemoglobinopatias (Cehmob-MG),
primeiro projeto implantado no Brasil, aprovado e patrocinado pelo Ministério
da Saúde, já é, quase dois anos depois de ser criado,
uma referência nacional.
“O Cehmob é uma história boa, é uma história feliz”, observou a coordenadora, que acompanhou o processo de implantação do projeto e, por isso, considera a iniciativa modelo para outros estados. “O Cehmob é referência nacional e vai se tornar internacional, é caminhar para isso mesmo”.
Será nesse ambiente que o Cehmob promoverá, com patrocínio do Ministério da Saúde, o Encontro Mineiro e Fórum Nacional de Políticas Integradas de Atenção às Pessoas com Doença Falciforme, entre 6 e 9 de junho, em Belo Horizonte. O evento tem o apoio da Fundação Hemominas e do Núcleo de Ações e Pesquisa em Apoio Diagnóstico (Nupad), órgão complementar da Faculdade de Medicina da Universidade Federal de Minas Gerais.
Minas Gerais foi um dos primeiros estados brasileiros a desenvolver, por intermédio da Fundação Hemominas – referência, desde o início da década de 1990, para o tratamento das hemoglobinopatias – o programa de atenção integral às pessoas com doença falciforme. Além disso, Minas foi o primeiro a incluir, em 1998, a doença falciforme no exame de triagem neonatal, conhecido popularmente por teste do pezinho, cuja responsabilidade é do Nupad.
No Ministério da Saúde desde 2004, Joice Aragão acredita que Minas está preparada para receber evento tão importante. “Tenho quase certeza que a gente vai caminhar, porque o fórum está bem estruturado, está nas mãos de pessoas competentes e responsáveis aqui em Minas, foi um acerto muito grande trazer para cá o fórum. Meu desejo é que contribua plenamente com essas questões, questão de humanidade mesmo”.
Em abril passado, quando esteve em Belo Horizonte, ela concedeu entrevista exclusiva ao site do Cehmob e abordou vários aspectos da doença falciforme, cuja incidência é um caso para cada mil crianças nascidas no Brasil. Além da questão da regulação, a médica enfatizou a importância de se discutir a integralidade, a inserção desse paciente na sociedade, que será o ponto alto do Encontro de junho.
Leia trechos da entrevista da coordenadora da Política Nacional de Atenção Integral às Pessoas com Doença Falciforme e outras Hemoglobinopatias do Ministério da Saúde.
Qual o quadro atual da doença falciforme no Brasil?
Considerando a magnitude do País, da população –
o Brasil é uma potência, um país grande – eu diria
que há bastante desconhecimento. E considerando também a invisibilidade
durante esse longo período desde que ela foi descoberta, em 1910,
até os últimos anos, a doença falciforme é ainda
bastante desconhecida pelos trabalhadores do SUS, mas não invisível
para um grupo numeroso de especialistas, técnicos, e principalmente
para o movimento de homens e mulheres negras no Brasil. Então, tem
uns 30, 40 anos que o movimento reivindica, apoiado por hematologistas,
enfermeiras e outros profissionais, por gente que trabalhou de alguma forma
com pessoas com doença falciforme, um programa de doença falciforme
no País. Ainda encontramos com muita facilidade médicos, não
falo nem de outros profissionais, que não sabem o que é doença
falciforme.
Então, entre os profissionais ainda tem esse desconhecimento
da doença?
É o que temos constatado. E dependendo do Estado do Brasil, a gente
pode ter um percentual bem significativo de desconhecimento.
Há ações do Ministério da Saúde
voltadas à doença falciforme para a população
em geral?
Sim e não. Não porque toda vez que você faz a divulgação
de uma doença você tem de ter uma rede de assistência
preparada para dar conta das demandas de pessoas diagnosticadas ou querendo
fazer diagnóstico. Então, organizar a rede de assistência
é o primeiro passo. E sim porque esse processo de trabalho leva consigo
uma rede de informação. Estamos trabalhando a rede de assistência
em todo o País, fazendo seminários, fóruns, capacitações
e com a triagem para as hemoglobinopatias nos recém-nascidos presentes
em 13 estados. Propaganda explícita, direcionada, no momento a gente
tem de ter certa cautela para não criar uma expectativa e não
ter resposta para dar. Todo diagnóstico deve ser seguido de uma assistência
a quem for diagnosticado, em qualquer doença. Por isso, a gente precisa
ir divulgando através da qualificação e organização
da assistência.
E como está a rede de assistência?
Em todo o Brasil, a doença falciforme é atendida, prioritariamente,
pelos hemocentros. Têm só três Estados cujos hemocentros
não fazem atendimento a pessoas com doença falciforme, que
são Mato Grosso do Sul, Rio Grande do Sul e em Goiás. Todos
os outros têm pacientes atendidos por hematologistas. A rede de assistência
deve priorizar o hemocentro, seja o hemocentro coordenador, sejam os hemocentros
regionais ou onde o hemocentro não faz essa assistência, os
hospitais de referência já existentes. Todos devem estar preparados
para oferecer essa assistência especializada. Face à magnitude
da doença falciforme, de um (caso) para mil crianças (nascidas
vivas) no Brasil, precisamos preparar a rede de atenção para
a integralidade, quer dizer, essas crianças, como em qualquer outra
doença, não têm de ser atendidas só por hematologistas.
Estou me referindo mais a criança por conta da triagem ser o nosso
ponto de partida. Então a gente precisa organizar a rede para que
essa rede tenha, dentro da atenção básica, do PSF (Programa
de Saúde da Família), o acolhimento dentro dos programas existentes.
Não tem nada que precise ser criado fora disso. Não tem sentido
uma pessoa que tenha doença falciforme não estar atendida
nos programas de saúde bucal, saúde da mulher e outros programas.
Agora, como a gente prepara essa rede? A gente tem uma atenção
básica que desconhece a doença falciforme. Por isso, o investimento
em capacitação dos clínicos, dos pediatras, das enfermeiras,
do nutricionista, enfim, de todos os profissionais do SUS, para saber o
que é a doença e qual a sua participação nessa
atenção.
Há estados que ainda não fazem a triagem neonatal?
Quatorze estados não fazem triagem pelo programa (Programa Nacional
de Triagem Neonatal), não estão credenciados, não pediram
credenciamento, ou, se pediram, tiveram pendências. O que a gente
tem hoje são 13 estados fazendo a fase dois. O teste do pezinho para
fenilcetonúria e hipotireoidismo (fase um do Programa) está
no Brasil todo, nos 27 estados da Federação. Agora, passando
para as hemoglobinopatias, que é a fase dois, a gente só tem
13 estados. O Sul todo, Santa Catarina, Paraná e Rio Grande do Sul;
o Sudeste todo, São Paulo, Minas, Espírito Santo e Rio de
Janeiro; no Nordeste, Pernambuco, Bahia e Maranhão; no Centro-Oeste,
Mato Grosso do Sul e Goiás; e no Norte, Roraima.
Há previsão para a triagem neonatal atingir todos
os estados?
O gestor estadual é quem pede adesão, O Ministério
da Saúde disponibiliza recursos para esse fim. O Estado precisa ter
o serviço qualificado segundo as normas do Programa Nacional de Triagem
Neonatal para o hipotireoidismo e a fenilcetonúria, é menos
complexa, igualmente importante, e o número de diagnóstico
bem menor. Já a doença falciforme tem uma tecnologia mais
complexa e vai estar presente em número muito maior. O Ministério
dá assessoria técnica, avalia e habilita os serviços
de triagem.
Em agosto de 2005 foi assinada a Portaria 1391, que define as diretrizes
da Política Nacional de Atenção Integral às
Pessoas com Doença Falciforme e outras Hemoglobinopatias. Desde então
o que mudou para os pacientes e para o SUS?
A gente ainda não tem indicadores precisos, mas estamos trabalhando
nisso. Um exemplo, no Rio de Janeiro já construímos porque
é o primeiro programa, porque é mais antigo, então
a taxa de mortalidade das crianças nascidas, de 2000 para cá,
é de 2,8%. Em todo o mundo, a taxa menor é de 1,8%. A nossa
era estimada em 25%, de 0 a 5 anos. Na África, de 0 a 5 anos, é
de 80%. O que podemos constatar é um grande número de eventos
em todo o País sobre a doença e um grande número de
convênios sendo feitos com o Ministério da Saúde para
a atenção às pessoas com doença falciforme.
E do ponto de vista da integralidade?
A atenção integral implica em olhar essa pessoa dentro da
sociedade, não só na assistência médica. O perfil
de atenção dentro das doenças crônicas tem de
privilegiar sempre o autocuidado, a atenção à família
e as especificidades da doença. A primeira coisa é a assistência
médica específica, depois a atenção à
saúde com foco específico no autocuidado, no apoio familiar.
Fora da área da saúde, tem o cidadão, tem a criança
que vai à escola, mas tem crise de dor, geralmente é uma criança
pobre, é uma criança, na maioria, preta ou parda, os olhinhos
amarelados, que precisa ir muito ao banheiro e precisa faltar às
aulas. E aí, como que na educação dessa criança
o Ministério da Educação vai sinalizar? No trabalho,
você pode ter um excelente profissional, mas ele, volta e meia, tem
uma crise, não pode ficar numa sala com ar condicionado muito intenso,
não pode se expor a ir embora para a casa no dia de chuva como outras
pessoas, porque ele pode contrair um resfriado, uma infecção,
uma gripe que, para ele, é quatrocentas vezes de maior risco do que
para mim ou para você que não tem a doença falciforme.
Então, como esse cidadão está sendo tratado no trabalho?
Como a Previdência trata esse caso? Para isso estamos constituindo
fóruns, como esse que vai acontecer aqui em Minas, para que se definam
as políticas públicas, nesse primeiro momento envolvendo educação,
trabalho e previdência. A pessoa com doença falciforme não
é inválida, então está fora de discussão
pleitear aposentadoria. Mas a pessoa com doença falciforme pode ter
sofrido, quando criança, um AVC (acidente vascular cerebral), e ela
não fala, ela não anda, é uma intercorrência
freqüente. Como essa intercorrência vai ser vista pela Previdência?
Não como pessoa com doença falciforme aposentada, mas uma
seqüela que vai ser incorporada nas seqüelas neurológicas,
que a Previdência já tem. Então, a gente precisa dar
visibilidade à presença da doença falciforme nesses
processos de previdência. É uma demanda antiga, se fala muito
e é muito bom que agora estejamos encarando e fazendo isso. Acho
que esse fórum aqui em Minas é fundamental, decisivo, importante,
para a gente trabalhar a atenção integral às pessoas
com doença falciforme.
Qual a sua expectativa em relação ao Encontro de
junho?
A nossa expectativa é de que se dê conta de grande parte dos
clamores das pessoas com doença falciforme que chegam até
a gente, que chegam ao Ministério, que chegam à coordenação,
que chegam para a nossa equipe e o papel como Ministério, como governo,
é esse, ou seja, responder a esses clamores. A nossa expectativa
é que se construam os instrumentos para atender a essa demanda, porque
é muito sofrida a vida das pessoas que têm uma doença
crônica, terem muitas necessidades e não terem um acolhimento
do governo, seja ele federal, estadual ou municipal. Quem os ampara? Temos
que lembrar a situação econômica específica desse
grupo: são em grande maioria afrodescendentes pobres e que estão
inseridos nas populações de maior risco social. Moram em comunidades
com menos recursos de saneamento, de qualidade de vida. Estamos construindo
um trabalho voltado para a integralidade, e integralidade implica na qualidade
de vida, na melhoria da saúde e na busca de uma cidadania plena.
O que representou a criação do Cehmob?
O Cehmob é a primeira experiência com esse perfil no País.
O programa de triagem do Nupad é um programa de referência
mundial. Se alguém me perguntar a triagem que você indica no
Brasil, para qualquer coisa, eu não tenho dúvida de que o
Nupad é um exemplo que com o Cehmob amplia o seu raio de ação.
É uma coisa que estamos tentando reproduzir, mas é óbvio
que a realidade de Minas é uma, são 853 municípios,
cada estado tem de ver quais são as suas demandas e as suas necessidades,
mas é um modelo a ser copiado. O Cehmob é a cara de Minas,
esse estado enorme, com essas possibilidades.
O projeto do Cehmob serviu de exemplo?
O Cehmob é um grande exemplo. Como ele é macro, não
vai ser reproduzido em nenhum outro local exatamente assim, mas ele é
o modelo. Como a triagem é referência internacional, o Cehmob
é referência nacional e vai se tornar internacional, é
caminhar para isso mesmo. Somo megalomaníacos mesmo, no pensar grande.
No momento em que a gente tem profissionais comprometidos, profissionais
que têm o pé na realidade do que é a doença falciforme,
que não precisamos de enormes recursos, temos que pensa macro.
Existem outras iniciativas?
Tem. Na Bahia, a triagem fez convênio com o Ministério da Saúde
para trabalhar algo com uma abrangência também maior do que
simplesmente o serviço de triagem, ampliando-o, com outras competências.
Em Camaçari, que é pólo petroquímico, tem muitos
recursos, eles também querem pensar algo assim, que seja uma referência,
o perfil voltado muito para o social, para a assistência social das
pessoas que vão ser triadas na Apae em Salvador e estarão
na região, ali junto tem um aglomerado de municípios que estão
interessados, então faremos um centro de referência em Camaçari.
Com que perfil? Com o perfil da região. A gente tem outros centros
de referência com outros perfis, tem centro de referência para
capacitação, na UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro),
para a pediatria, e em saúde bucal, tem a universidade do Espírito
Santo, que está fazendo para capacitação, quer dizer,
têm diferentes perfis. Como muitos estão começando,
a assistência tem prioridade. Eu acho que caminhar para ampliar a
atenção demora um pouco, então eu acredito que isso
no Brasil vá se ampliar, acho que isso é uma coisa que vai
acontecer à medida que acontece num lugar bem situado, bem-feito.