07 de outubro de 2009
Estudar os aspectos do crescimento e desenvolvimento somático-sexual de adultos com doença falciforme, com foco nas controvérsias encontradas na literatura sobre o tema. “Maturação e função sexual na Doença Falciforme” foi o tema do estudo apresentado pelo médico e coordenador do Hemocentro Regional de Uberaba,unidade da Fundação Hemominas, Paulo Roberto Martins.
“A doença é um dos distúrbios genéticos mais frequentes no Brasil e no mundo, atingindo principalmente a população afrodescendente”, explica o médico. Segundo Paulo, a literatura científica existente já constatou que os portadores da doença falciforme apresentam algumas características físicas comuns que podem alterar o desenvolvimento sexual. Entre as pacientes, é possível verificar retardo da puberdade, traduzido por atraso da primeira menstruação, além de relatos de transtornos na fertilidade quando atingem a idade adulta. Já os pacientes do sexo masculino apresentam puberdade tardia, rarefação dos pelos peitorais axilares e pubianos, além do aumento da frequência do priapismo (ereção dolorosa e persistente do pênis, associado ou não ao estímulo sexual), disfunção erétil e diminuição da libido.
Paulo Roberto também apresentou os resultados de um estudo feito com 15 pacientes atendidos pelo ambulatório da Fundação Hemominas de Uberaba. A pesquisa foi feita em parceria com a Universidade Federal do Triângulo Mineiro (UFTM) e Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) e teve como objetivo principal estudar as causas da ocorrência do hipogonadismo (defeito no sistema reprodutor que resulta na diminuição da função das gônadas - ovários ou testículos) em pacientes adultos do sexo masculino, portadores da doença falciforme.
O primeiro estudo teve início em 1992 e durou dois anos. Em 1997, foi realizado outro estudo, desta vez com duração de dois anos e meio. De acordo com o médico, as pesquisas encontraram algumas dificuldades, visto que as entrevistas, exames clínicos e complementares propostos envolvem aspectos de intimidade dos pacientes, tal como o seu desenvolvimento sexual. “Mas por meio de uma explicação detalhada sobre o intuito da pesquisa, com esclarecimentos dos aspectos clínico-laboratoriais e principalmente, sobre o ganho de conhecimentos para a causa da doença falciforme, tais dificuldades foram superadas”, explicou. Além disso, acrescentou Paulo, foi feito um termo de consentimento livre e esclarecido, que mostrou, de forma detalhada, todas as etapas do processo em linguagem simples.
Estima-se que existam cerca de 30 mil pessoas com anemia falciforme no país. Minas Gerais foi o estado pioneiro na implantação, em 1998, da Triagem Neonatal, conhecida popularmente por Teste do Pezinho, para a identificação precoce dessa doença e outras hemoglobinopatias. Apenas no estado, mais de cinco mil pacientes estão cadastrados na parceria Hemominas, Cehmob-MG e Nupad.
Para a obstetra e professora da Faculdade de Medicina da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), Regina Amélia Lopes Pessoa de Aguiar, a reprodução humana na doença falciforme apresenta certos mitos que precisam ser revistos nas práticas de saúde voltada para esses pacientes. principalmente quanto ao papel da mulher falciforme na reprodução.
Ela citou como exemplo a menarca, ou seja, a primeira menstruação, que acontece geralmente aos 14 anos na portadora de doença falciforme, o que é considerado tardia por alguns estudiosos. A professora da UFMG disse que esse não é um fator preocupante e que o conceito da maturidade da fertilidade diminuída por causa desse fator é um mito. Segundo ela a fertilidade feminina não é alterada efetivamente por causa da doença falciforme. Quanto à menopausa, a pesquisadora afirmou que “não há clareza se a doença tem influência no adiantamento ou no atraso da mesma”, explicou Regina.
A grande apreensão dos especialistas é com a gestação. “Esta é uma preocupação que o profissional deve ter. Ele deve estar atento no acompanhamento da paciente no pré-natal para garantir uma gestação de forma mais segura para a portadora de doença falciforme”, afirmou.
A pesquisadora chamou também a atenção para o planejamento familiar como uma decisão livre do casal e que o estado deve propiciar os recursos para que o cidadão possa exercer esse direito. “O planejamento familiar consiste em ações preventivas e educativas e incorpora aconselhamento pré- concepcional e contracepção”.
Regina Amélia afirmou que as dificuldades encontradas nos métodos contraceptivos para a mulher com doença falciforme não é muito diferente das mulheres que não possuem a doença. Segundo ela, “todas as mulheres necessitam de informações e as mulheres falciforme, também”.
A professora da UFMG citou a legislação dos Direitos Humanos no que diz respeito ao direito à livre expressão da sexualidade, direito das pessoas decidirem de forma livre e responsável se querem ou não ter filhos, quantos filhos desejam ter e em que momento de suas vidas. Além da responsabilidade do profissional de saúde quanto o aconselhamento genético. “As pessoas com doença falciforme têm o direito de exercer plenamente a sua reprodução”, afirmou Regina.
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